Crônica Forense

... Juro acreditar no Direito como a melhor forma para a convivência humana ...

Nome:
Local: Montes Claros, Minas Gerais, Brazil

Advogada, professora do curso de Direito da Unimontes e da FADISA, apaixonada pela profissão, observadora dos relacionamentos interpessoais, incentivadora do diálogo, apreciadora de eventos sociais, leitora assídua de tudo aquilo que é escrito com boa forma e bom conteúdo, tão ouvinte quanto falante, defensora de todo e qualquer produto do homem, verdadeiramente encantada com a potencialidade do ser humano.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Sabedoria Popular

"Quem parte e reparte
E não fica com a melhor parte,
Ou não tem tino
Ou não tem arte"
Só mesmo a sabedoria popular para explicar porque, seja para dividir uma pizza, seja para fazer a partilha de um latifúndio, todo irmão mais novo acha que, ainda que inconscientemente, o irmão mais velho tomou-lhe a melhor fração!

sábado, dezembro 31, 2005

Retrospectiva de 2005


O ano em uma só palavra:
Conquistas.

Um marco:
Para quem sempre foi professora desde a época em que lecionava para bonecas até lecionar em cursinhos preparatórios para o vestibular, atingir a docência universitária, especialmente nas cadeiras mais cobiçadas (por mim, pelo menos), foi o ápice!

Um avanço:
A aquisição do meu primeiro carro. Ainda que antes já pudesse contar com um veículo à minha disposição, nada se compara a ter um carro que é só seu, fruto do seu esforço, objeto da sua escolha... Sem dúvida a aquisição do primeiro carro é algo muito significativo, não pelo que representa no aspecto material, mas pelo que representa na trajetória da vida... Somente agora consegui entender as propagandas de veículos onde um brasileiro lustrava seu automóvel com tamanho carinho, com tanto zelo, até mesmo com devoção... Brasileiro é mesmo apaixonado por carros!

Um aborrecimento:
Um mês depois do meu “avanço”, uma F-250 “avançou” uma esquina à toda, desrespeitando uma placa de PARE e por ironia do destino, no final desta esquina lá estava eu, toda feliz dentro do meu carrinho novo... Passada a vontade de espancar o motorista da caminhonete, compreendi que talvez a batida foi um sinal para que eu mesma tomasse maior cuidado, pois graças a Deus eu não me machuquei e não machuquei ninguém, já que, muito embora não estivesse correndo no momento da colisão, confesso que a sedução de uma máquina nova me convidou algumas vezes a testar os seus limites.

Um gosto:
Depois de muito comentar em blogs alheios, vencendo a antiga idéia de evitar exposições desnecessárias, resolvi criar o meu próprio blog: Crônicas Forenses. A proposta era criar uma válvula de escape para as opressões do dia-a-dia forense que faz parte da minha rotina enquanto advogada e professora do curso de Direito. Entretanto, permitindo-me a liberdade de postar tudo o quanto mais me afligisse, mais do que a publicação das minhas idéias, o blog se tornou uma terapia. Primeiro porque os comentários que recebi (especialmente alguns comentários um pouco mais pessoais que vieram por e-mail) me auxiliaram em descobertas íntimas importantíssimas, e segundo porque ao escrever, ou mesmo ao idealizar algumas crônicas que sequer foram exteriorizadas, eu desfrutei de um prazer inenarrável, que só quem é blogueiro é capaz de entender!

Uma amizade:
Conheci (ou “conheci melhor”) tantas pessoas bacanas neste ano: Leonardo, Luis Felipe, Rodrigo, Cida, Osório, Maria Alice, Carlos Fernando, Fernandinho, Ewerton ... Vivi bons momentos ao lado de antigos amigos que fica até difícil realçar um só. Mas merece destaque a amizade que espontaneamente nasceu entre mim e Letícia. Nem sei como, mas quando nos vimos, já éramos confidentes que se conheciam há anos... A minha falta de tempo, é certo, foi empecilho para que nos encontrássemos mais vezes, mas de alguma forma ela conseguiu se fazer presente em minha vida, sendo elogiável a sua paciência com o meu jeito falante, compreensão pela minha ausência, sinceridade em suas opiniões e rara coragem para puxar minha orelha quando necessário. Foi muito bom saber que posso contar com uma amizade deste quilate!

Uma fala:
“- Senhora? Você a chamou de senhora? Olha para a cara dela! Vê lá se ela tem idade para ser chamada de senhora! Todo mundo aqui é mais velho que ela. Não é porque ela está lá na frente ou num palco que ela ganhou experiência para ser chamada de ‘senhora’!”

Um escrito:
Sem dúvida, os rodapés das provas que corrigi:
“(...) os seus olhos combinam a doçura que protege com a agressividade que incentiva (... )” “(...) aprendi tanto além da matéria, que acabei aprendendo que quando o professor é bom, não há limites para se aprender (...)” “(...) daqui há alguns anos acho que ainda vou ouvir sua voz dizendo que não é preciso saber tudo, é preciso ter ouvido falar de tudo.” “(...) você despertou em todos nós a vontade de crescer, de ser melhor, de vencer, de ser igual a você!”

Uma música:
“Quem sabe isso quer dizer amor”,
do Lô Borges, na voz do Milton Nascimento.

Cheguei a tempo de te ver acordar
eu vim correndo a frente do sol
abri a porta e antes de entrar
revi a vida inteira pensei em tudo que é possível falar
que sirva apenas para nós dois
sinais de bem, desejos de vitais pequenos fragmentos de luz
falar da cor dos temporais
de céu azul, das flores de abril
pensar além do bem e do mal
lembrar de coisas que ninguém viu
o mundo lá sempre a rodar e em cima dele tudo vale
quem sabe isso quer dizer amor
estrada de fazer o sonho acontecer
pensei no tempo e era tempo demais
você olhou sorrindo pra mim
me acenou um beijo de paz
virou minha cabeça
eu simplesmente não consigo parar
lá fora o dia já clareou mas se você quiser transformar
o ribeirão em braço de mar
você vai ter que encontrar aonde nasce a fonte do ser
e perceber meu coração bater mais forte só por você
o mundo lá sempre a rodar, e em cima dele tudo vale
quem sabe isso quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer
(A Cemig também escolheu esta música para o tema de um dos seus mais belos comerciais de tv).

Um filme:
Efeito borboleta, porque, de fato, os nossos atos compõem uma grande cadeia na qual, modificada apenas uma de nossas escolhas, todo o resto se altera.

Uma decepção:
“- Sabe aquela festa de formatura de uma ‘amiga’ nossa que disse que só tinha convite para mim, e que por isso, descarada mas sinceramente, convidou toda a nossa turma de amigos menos você? Pois é, eu te disse que ia visitar minha família em B. Horizonte e confirmando todos as suas suspeitas as quais neguei veementemente durante quase quatro anos, eu fui à festa! Ah, sim, é claro que muitas pessoas perguntaram cadê você. Sim, aquela sua amiga do coração também estava lá. Ao me ver sozinho, é claro que ela perguntou de você. Sim, é óbvio que ela notou o meu mau passo e supôs que você teria ficado magoada por uma série de fatores. Sereno da parte dela não ter te contado exatamente para evitar fazer fofoca ou intriga. Mas você tem razão, talvez você no (delicado) lugar dela, teria ligado para saber se estava tudo bem no relacionamento, para secar as lágrimas que com certeza ela pôde supor que existiram, sem precisar falar nada mais...”

Um momento difícil:
Contar aos meus chefes que depois de uma salutar convivência de mais de três anos, depois de tamanho aprendizado, depois de tamanha confiança em mim depositada, era chegada a hora de seguir o meu caminho, de sair do escudo de proteção do nome profissional consagrado de que dispõem para buscar o meu próprio espaço, construir o meu próprio nome. A gratidão é eterna, a relação de parceria haverá de continuar, mas à partir do ano que vem devo começar um novo projeto, independente, para buscar lançar a minha marca individual.

Uma alegria:
Poder contar com o auxílio do Victor na construção de um novo projeto profissional. Aliar afinidade profissional com afinidade afetiva é ao mesmo tempo correr o risco do desgaste, mas desfrutar da cumplicidade de uma produção.

Uma pergunta:
“Se em 2005 você conseguiu conquistar todas as metas que você planejava conquistar ao longo dos próximos três anos, o que te sobra para conquistar agora?”

Uma certeza:
“O homem é um eterno insatisfeito”.
A nossa imperfeição convida ao constante aperfeiçoamento. Ainda há muito o que mudar dentro de mim. Ainda há muito o que explorar. A virtude de 2005 está em antecipar algumas metas, em diluir em cada dia uma alegria, em poder contar com o apoio sincero e precioso de muitas pessoas queridas, em ter aprendido muitas lições (mais do que ter ensinado), em ter tido saúde para lutar pelas minhas conquistas, serenidade para fazer boas escolhas, e muito amor para que tudo isso fizesse sentido. Mas ainda há muita, muita coisa para conquistar...


quarta-feira, dezembro 28, 2005

Um ano novo repleto de realizações!

Os cartões de boas festas que todo ano recebo sempre me põem a refletir. Os votos de um “feliz natal” e um “ano novo repleto de realizações”, ainda que algumas vezes componham um clichê que em nada traduz a sinceridade do seu propósito, despertam em mim a consciência de que mais um ano está se encerrando para ceder lugar a um novo ciclo. Concordo inteiramente com o Drummond quando dizia que não há genialidade maior que fracionar o ano em doze meses, o limite perfeito para a necessária renovação. Sei que entra ano sai ano tem coisas que não mudam. Sei que promessas de ano novo costumam ser infrutíferas. Sei também que não há simpatia melhor para trazer boa sorte no ano vindouro que plantar boas sementes hoje. Mas ainda assim não consigo me desfazer de uma velha tradição para iniciar um ano novo: imortalizar o ano que finda. Há quase uma década guardo o hábito de deixar registrado em um papel qualquer o que de melhor, de pior, de mais marcante ocorreu em minha vida. Nada mais prazeroso para mim do que reviver anos velhos! É como se fosse possível sentir de novo cheiros, aprender novamente uma lição, rever pessoas, ouvir uma música que não toca mais, experimentar um abraço, reviver um sentimento, ver o tamanho do nosso próprio crescimento...

Não é bem esta a proposta deste blog, mas considerando o pedido de alguns dos meus seletos leitores, a imortalização do ano de 2005 será virtual, a fim de que pessoas queridas possam ter notícias minhas, saber da sua participação neste ano que se acaba, dividir comigo as minhas alegrias, auxiliar-me na superação de alguns dissabores, ou simplesmente relembrar o que foi vivido junto comigo. Seguirá, então, nos próximos dias, "A RETROSPECTIVA DE 2005" depois que tiver vertido ao papel as minhas reflexões, já que, a modernidade do blog não obstante salutar, não desfez em mim a necessidade de tomar a caneta em minhas mãos... Talvez faça parte da minha simpatia de ano novo...

terça-feira, novembro 15, 2005

Um automóvel 0 Km ou uma panela de pressão?

Eu confesso: mesmo depois do advento da TV à cabo, não resisto e sempre dou uma espiadinha nos besteiróis de domingo à tarde. Ao contrário do que a grande maioria dos críticos propagam, enxergo tamanha densidade nos programas dominicais que às vezes me flagro relembrando um quadro (que era para ser só humorístico) durante toda a semana. São verdadeiras odes à psicologia moderna, e para ficar no raso do meu comentário, adjetivo-os, no mínimo, do retrato fiel da nossa vida atual.

São tão marcantes estes programas dominicais que só de ouvir a antiga música dos Trapalhões ou o gingle de abertura do Programa do Sílvio Santos (Sílvio Santos vem aí...) sinto o cheiro da lasanha e do frango assado que tão bem acompanhavam os meus domingos.

Noutro dia, analisando detidamente cada página de uma ação judicial, acabei caindo no clarão da minha memória ao fazer uma inusitada correlação entre a sentença do juiz e o Programa do Faustão. Resgatei em minha mente um dos quadros mais interessantes daquele Programa. Não me lembro bem qual era o nome do quadro, mas tratava-se de uma divertida distribuição de prêmios que nunca deveria ter saído da televisão brasileira, tamanho era o seu potencial educativo. Toda a estratégia da brincadeira televisiva passava pela oneração do próprio participante com a escolha do seu prêmio. “Nada de sorte, apenas uma questão de escolha”, falava ironicamente o Faustão, trajando uma das suas infinitas camisas de botão, meticulosamente alinhada dentro da calça, ao mostrar ao convidado os prêmios que poderia escolher: uma TV 29 polegadas, um par de meias, um aparelho microondas, um desentupidor de pia, uma motocicleta, um coador de café, uma panela de pressão, e um automóvel 0 KM!!!

A regra era bem simples. Dentre os prêmios oferecidos, o convidado, por sua própria e livre vontade deveria escolher apenas um. Só um detalhe: os prêmios eram anunciados bem em frente, através de um grande monitor, o qual não poderia o convidado enxergar porque se encontrava em uma cabine isolada de sons e imagens. Com todo sarcasmo que lhe é peculiar, o Sr. Fausto Silva provocava as reações do convidado. “Você troca o maravilhoso prêmio 1 (no visor aparecia o automóvel 0 KM) pelo fantástico prêmio 2 (no monitor cintilava uma panela de pressão)?”. Na frente da televisão, já antecipando a minha eterna função de expectadora de dramas alheios, como sofria quando o convidado deixava o Programa levando consigo um coador de café...

Não sei porquê este quadro durou tão pouco tempo e acabou sendo abolido, mas parece ter saltado da tela da TV para ter invadido a realidade de muita gente.

Peguei o caminho inverso para voltar ao escuro do meu processo. Será mera coincidência alguém crer numa sentença que lhe promete recuperar a propriedade da casa dos sonhos, e por assim acreditar, negar uma proposta de acordo cuja soma seria bastante para adquirir uma outra casa modesta, para, ao final, obter apenas a sentença devastadora a negar-lhe o direito sobre qualquer imóvel?

Se soubéssemos o final do filme, prestaríamos mais atenção nos detalhes a nos antecipar o desfecho conhecido. Mas, se não sabemos o final da estória, corremos o risco de nos perder na trama, e talvez seja este mesmo o brilhantismo, inteiramente seduzidos pelo todo, deixamos passar desapercebidas todas as evidências.

Não tenho dúvida de que este tolo programa de domingo poderia ter ensinado muita coisa a quem se dispusesse a aprender. Numa tarde de domingo, poderíamos, por exemplo, aprender que, quando não podemos enxergar direito, ante uma escolha, só nos resta consultar a nossa intuição. Poderíamos entender que ainda que numa brincadeira, os nossos prêmios são sempre fruto da nossa escolha. Ou poderíamos aprender simplesmente que, na nossa confusa natureza humana, ganhar uma motocicleta quando se poderia ter ganhado um automóvel é absolutamente frustrante.

Se cada um de nós soubesse o final da nossa própria estória, quando nos víssemos numa cabine isolada, face à escolha dos nossos prêmios, prestaríamos mais atenção nos detalhes. Talvez a chave de toda a trama pudesse estar mesmo nas lições despretensiosamente escondidas numa tarde de domingo.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Burra Burocracia

Acabei de cometer um ilícito administrativo e sem sentir um pingo de culpa pelo meu crime reflito agora sobre a minha conduta típica. Definitivamente não consigo enxergar o mundo sobre a lente do publicismo. Credibilizo muito mais a eficiência das relações privadas. Não sou defensora do anarquismo (talvez muito pelo contrário), mas a incoerência e anacronismo do Estado brasileiro têm me deixado cada vez mais perplexa.

Imagine um Estado que imponha que as suas Universidades dediquem esforços no sentido de ampliar a pesquisa e o ensino. Imagine este mesmo Estado aumentando a tributação e diminuindo os seus investimentos nas Universidades públicas. Imagine novamente este Estado exigindo a comprovação documental dos esforços das Universidades neste sentido. Imagine, pois, que as Universidades, desprovidas de recursos, para atender a esta imposição, lancem mão de soluções criativas para demonstrar um investimento num seguimento em que não houve a contento. Imagine, assim, que para implementar estas soluções as Universidades tenham necessariamente que contar com a participação do seu corpo discente e docente. Imagine, então, que o corpo discente e docente, intuitivamente cientes do fundo burocrático a solicitar a colaboração se neguem a prestá-la. Imagine, de maneira dramática, que as Universidades tenham a obrigação de comprovar tais investimentos. Imagine que ante a negativa espontânea do corpo discente e docente em integrar este tipo de ação, outra alternativa não reste às Universidades senão o uso da coação. Imagine que sem sanção não há coação eficiente. Imagine, deste modo, que mesmo coagidos com a decretação da dedicação exclusiva à solução criativa de fomento à pesquisa e ensino das Universidades, ainda assim não haja a adesão esperada da comunidade acadêmica. Imagine, por este raciocínio, que ao menos formalmente a Universidade atingiu a sua meta. Imagine, por outro lado, que se por convicção ideológica ou qualquer outro motivo que o valha o corpo discente e docente não aderiram à proposta da Universidade, por sua coação, também não puderam aderir a nenhuma outra atividade acadêmica. Imagine agora que um representante do corpo docente, sem pretender se insurgir contra o sistema, visando unicamente buscar resultados mais efetivos, conjugando a não adesão dos discentes à sua não adesão, tenha concluído que o tempo dentro da Universidade é algo precioso e que entre não estar na Universidade participando de uma proposta rejeitada e estar na Universidade efetivamente produzindo dentro de uma outra proposta lícita e necessária, tenha então escolhido levar à cabo a segunda opção. Imagine a satisfação dos membros da comunidade acadêmica em estar produzindo efetivamente enquanto o absoluto silêncio invade as salas da Universidade. Imagine que não é tão óbvio que a busca de melhores resultados através da otimização de esforços em atendimento aos princípios democráticos sejam diretrizes a ser buscadas por toda a nossa sociedade, e em especial pelo próprio Estado. Agora imagine um duelo entre o que é e o que está no papel. Sob a ótica do nosso Estado, imagine o resultado... Eis o meu crime: imaginar que aquilo que não prejudica ninguém, beneficia um grupo, é decidido democraticamente pelos beneficiados, e produz resultados positivos seja algo previamente aprovado pelo Estado!

É óbvio que a legalidade deve ser o limitador da busca de resultados, já que não se pode admitir que os fins justifiquem os meios. Mas a legalidade deve ser justificada, necessária, acima de tudo, deve ser inteligente. Em absoluto, não acho que “papelizar” seja algo inteligente. É meia verdade crer que uma ata tenha mais valor que um ato. Será mesmo necessária esta enorme quantidade de papel que o Estado exige? Papéis comprovam muitas vezes apenas uma realidade que se quer alcançar. É verdadeiramente incrível como acreditamos no que está escrito no papel, especialmente nos papéis timbrados. Como se a tinta só registrasse a estrita verdade...

Cometi um ilícito administrativo por produzir resultados os quais, pelos simples fato de não poderem ser vertidos ao papel, não poderiam ser produzidos, ainda que o seu produto se dessem em favor do próprio Estado. Minha pena: amargar na visão das muitas oportunidades de crescimento das Universidades públicas, tolhidas pelo excesso da burocracia. Minha consciência: ter feito a minha parte da melhor forma que podia, ainda que jamais possa eu obter o papel que isso comprove, porque, afinal, para o Estado, definitivamente, isso não importa.

quarta-feira, junho 22, 2005

Sobre a docência

Sem sombra de dúvidas, aquele era o momento mais gratificante de toda a sua vida. Tinha a impressão que tantos tropeços e tormentos, despropósitos e disparates, sonhos e sátiras, esforços e embaraços vividos somente tinham valido para que ela pudesse desfrutar daquela sensação inigualável do encontro com o destino. O vento que anunciava a tempestade que lava alma era o único barulho externo que se ouvia. Dentro dela, só a música que embalava as suas reflexões. A sala estava calma e convidava-a a experimentar uma quietude nunca antes experimentada, ao menos não daquele ângulo. Sempre acostumada com a multidão de vozes que o seu olhar atento na frente da sala procurava identificar a autoria, parecia-lhe encantadora a oportunidade que o silêncio proporcionava naquele momento, como se ofertasse sentimento que dispensasse o som de qualquer palavra. Não seria absurdo nenhum dizer que amava cada um dos seus alunos.

Na ingenuidade da infância, quando as bonecas emprestavam-lhe os ouvidos para as primeiras aulas, sempre lhe cativava a idéia de poder ensinar algo, acrescentar alguma coisa mínima que fosse ao engrandecimento de alguém. Nunca teve a pretensão de se intitular professora de qualquer disciplina que seja, pois o mais importante era mesmo poder ensinar, independente do título. Às vezes lhe soava como pedantismo dizer-se "professora" quando na verdade via-se tão aprendiz quanto o próprio aprendiz. Tanto é que corou as bochechas quando, entre seus pares, leu o "profª" na frente do seu nome. Não há como negar, entretanto, a satisfação que sentiu quando ouviu, na voz doce de um pupilo, o título que hoje antecede o seu nome, anteceder também um pedido de ajuda.

Ali, sentada na frente da turma, pela primeira vez tinha a consciência da grandiosidade do encargo assumido. A turma vertia em esforços para devendar a prova adrede preparada. Ela vertia em esforços para desvendar o futuro daqueles que compunham aquela turma. Percorreu fileira por fileira das carteiras intencionalmente afastadas umas das outras. Num processo que durou uma eternidade, sentou-se com os olhos ao lado de cada um dos estudantes. Compreendeu os tímidos, emendou os exagerados, afagou os frágeis, apontou a luz ao desanimados, construiu sonhos para os sonhadores sonharem, leu para os incrédulos, trouxe para realidade os ufanistas, corrigiu pelo exemplo, repreendeu os rudes, foi paciente com os inflexíveis, sorriu ao contemplativos, a ninguém negou apoio, incentivou todos.

Doava-se em profundidade simplesmente por perceber em cada um deles a vontade de progredir, cada qual a seu modo, motivos e planos, todos estavam ali diante da mesma circunstância necessária: crescer. Identificou neles a semente por ela plantada. Notou neles um pouquinho dela mesma. Foi então que passou a compreender a sua missão.

De maneira inteiramente inusitada, insinuando talvez a pequena recompensa financeira, passado o tempo, perguntaram a ela do que valia lecionar. Lembrando-se da conversa com os olhos que teve com cada um dos seus alunos naquele dia, selando uma promessa para a vida inteira, pensou em dizer simplesmente que lecionar era aprender também. Chegou a ensaiar que lecionar seria uma nobre profissão ou mesmo uma arte. Porém, foi tomada pelo ímpeto sincero ao dizer que lecionar era auxiliar o crescimento de alguém. Seu valor estava em despertar no outro a vontade de ser melhor do que se era. Talvez o seu interlocutor não tivesse percebido, mas, ao assim concluir, numa breve fração de segundos, ela fechou os olhos, lembrou-se do rosto esperançoso de cada um dos seus alunos, e agradeceu-lhes a oportunidade da docência. Porque passada a nuvem da tempestade daquela noite, já sob a luz do sol promissor, tornou-se então evidente que contribuir para a construção de pessoas melhores é algo que realmente vale a pena.


sexta-feira, junho 03, 2005

O valor do nosso trabalho

Com segurança, o mais difícil para o profissional liberal é converter em dinheiro o valor do seu trabalho. Isso porque muitas vezes o valor cobrado por um serviço pouco trabalhoso é maior que o valor devido por um serviço complexo e demorado. Este detalhe faz com que, muitas vezes, os nossos clientes questionem o valor dos honorários fixados, pois parece-lhes contraditório que o valor do trabalho de um profissional liberal não seja medido pelo esforço empreendido ou grau de dificuldade. Entretanto, o que realmente parece-me contraditório é o esquecimento de que na maioria das vezes a remuneração devida ao profissional se justifica pelo benefício recebido pelo próprio contratante. A estória é exemplificativa:
"Era uma vez um especialista que foi chamado para solucionar um problema com um computador de grande porte e altamente complexo... Um computador que vale R$ 12 milhões. Sentado em frente ao monitor, pressionou algumas teclas, balançou a cabeça, murmurou algo para si mesmo e desligou o computador. Tirou uma chave de fenda de seu bolso e deu volta e meia em um minúsculo parafuso.Então, ligou o computador e verificou que tudo estava funcionando perfeitamente. O presidente da empresa se mostrou inteiramente satisfeito e aliviado e ofereceu pagar a conta no mesmo instante.
- Quanto lhe devo? -perguntou.
- São R$ 1 mil, por favor.
- R$ 1 mil? Por alguns minutos de trabalho? Por apertar um parafuso? Eu sei que meu computador vale R$ 12 milhões, mas R$ 1 mil é um valor absurdo! Pagarei somente se receber uma nota fiscal com todos os detalhes que justifiquem tal valor.
O especialista não discutiu. Na manhã seguinte, o presidente recebeu a nota fiscal, leu com cuidado, e providenciou o pagamento imediatamente, sem reclamar.
A nota fiscal dizia:
Serviços prestados:
Apertar um parafuso.......................... R$ 1,00
Saber qual parafuso apertar...........R$ 999,00"*
Moral da estória: cobra-se pelo que se sabe, e não necessariamente pelo que se faz.

*Texto de autoria desconhecida, gentilmente enviado por e-mail pelo Dr. Alex Brant.